Depois de algum tempo de ausência, voltamos aos nossos artigos… hoje para falar da criatividade. Escrevo sobre este tema após várias indagações que me têm colocado nas diversas formações que vou dando.

“Pode qualquer pessoa ser criativa? Pode ser a criatividade treinada? Poderemos estimular a criatividade? É preciso estar concentrado para poder criar? Precisamos de alguma substância para criar? E onde mora a criatividade?”

Foi perante questões deste género que comecei a investigar.

Um dos campos onde se exige mais criatividade é na música, por exemplo, onde os músicos de Jazz estão acostumados a improvisar. Num estudo de Limb & Braun (2008) publicado no PLoS One (artigo completo) estudou-se a criatividade de músicos experientes de Jazz com fMRI (Ressonância Magnética Funcional), onde se pretendia verificar que áreas do cérebro ativavam quando estavam em processo criativo.

Assim, verificou-se que as grandes áreas do cérebro são “desligadas” enquanto que algumas pequenas são “auto-iniciadas” gerando pensamentos e comportamentos altamente ativos.

Este estudo foi extremamente difícil de executar (podem consultar estudo original no link),  no entanto foi possível detectar os substratos neurais da criatividade. Assim nas tarefas de improviso (simples ou complexas) foram “desligadas” muitas partes do Córtex Préfrontal (mais especificamente o Córtex Préfrontal Dorsolateral) quase por completo. Esta área que é responsável pela monitorização do nosso desempenho pessoal sofre um processo de inibição.

Porém, o Córtex Préfrontal Medial estava muito ativo. Esta área é associada a memórias de longo prazo, por exemplo, quando as pessoas descrevem um evento passado, contam uma história ou quando sonham, sendo porém um padrão pouco usual. Outra peculiaridade deste estudo é que áreas associadas com a atividade sensorial (audição, tacto e visão), sendo este padrão replicável noutras tarefas de improviso que não estejam associadas a música.

O principal contributo deste estudo prende-se com o facto de indicar não existir nenhuma área de ativação cerebral que se prenda com a criatividade, mas sim uma ativação multifocal, que gera um padrão que permite a “criatividade”.

Para ver mais sobre este estudo recomendo esta conferência no TED efectuada pelo autor.

No entanto, num outro estudo mais recente de Takeuchi et al. (2011) (artigo completo), já aparece a criatividade e a inteligência associada a diferentes padrões:

 Enquanto que nas correlações com a criatividade associadas neste estudo ativa o precuneus (imagem à esquerda), já a inteligência ativa a porção esquerda no giro superior temporal, a ínsula e algumas regiões contingentes (imagem à direita).

Se o precuneus (imagem à esquerda), ativado em tarefas de criatividade (em sonhos) envolve a memória episódica, o processamento visuoespacial, reflexões sobre o self e aspectos sobre a consciência, já os que são ativados pela inteligência, por exemplo a ínsula, desempenha um papel muito importante nas emoções, percepção, vigília, controlo motor, funcionamento cognitivo e predictivo e experiências interpessoais.

Logo é interessante pensar que a criatividade é muito mais um processo da nossa interpretação da consciência enquanto que a inteligência é muito mais a nossa capacidade predictiva, ao contrário do que se pensava, a inteligência não é a aquisição de conhecimentos, mas a capacidade de prever ou predizer, papel que é desempenhado pelos neurónios de dopamina. Curioso que todas estas áreas são hiperestimuladas no sujeito com hiperatividade, mas já lá vamos.

Porém, para o cérebro criar precisa de fazer criar sentido… e num estudo de Wujec et al. (2009), cujo resumo podem ver nesta conferência, existem 3 partes do cérebro que devemos ter em conta para criar memórias: O feixe ventral, o feixe dorsal e o sistema límbico. Ora se é aqui que criamos memórias e as consolidamos, não será o mesmo local onde criamos?

Mas, de facto, o estudo mais interessante que me motivou a escrever este artigo, é o simples facto de eu ser um adulto com Perturbação com Déficit de Atenção e Hiperactividade, que se conhece vulgarmente como hiperativo, ou seja, muito distraído, mas com muita aptidão para criar (sendo eu suspeito a avaliar essa criatividade). Na busca do porquê, encontrei um estudo interessante de Carson et al. (2003) que indica que afinal, ser hiperactivo é muito positivo e que a distração não é afinal tão complicada como a entendemos.

Neste estudo de investigadores de Harvard e Toronto, falam da inibição latente. Mas afinal o que é isto da inibição latente? A inibição latente é a capacidade de ignorar estímulos que parecem irrelevantes (e que os hiperativos não possuem), como por exemplo, a conversa de outras pessoas num bar, o barulho que fazem os carros na rua, o tipo de voz que tem o fulano no outro lado da rua, enfim, tudo o que não importa e que retira a atenção focal do hiperativo com déficit de atenção.

Enquanto que esta capacidade é vista primariamente como um componente muito importante do processo atencional, é também ela que nos distrai do foco principal da nossa atenção (numa sala de aula, numa reunião, entre outros). Isto porém faz com que as pessoas com baixa inibição latente (caso dos hiperativos como eu), possuem uma mistura mais “rica” de pensamentos na memória de trabalho, de acordo com Lehrer (2010) (artigo).

Ora, para mim isto não é assim tão surpreendente, pois tendo dificuldade em constituir um filtro atencional, é mais fácil deixar entrar tudo, como escrever um artigo, misturar neurociências com marketing, ler um mail e acrescentar uma imagem do último livro, a pessoa que tem a voz estranha no café e que me leva a sorrir e escrever sobre esse estímulo.

Porém, o que o estudo tem de muita novidade, é que os estudantes que eram classificados como criativos (respondendo em vários testes de performance) pareciam sofrer até 7 vezes mais de baixa inibição latente (como os hiperativos), fornecendo assim dados que correlacionam a distratibilidade com a criatividade, indicando que os sujeitos com baixa inibição latente não conseguem fechar a sua mente, interrompem os outros frequentemente nos discursos pois não conseguem parar de criar raciocínios, recebem estímulos em todos os sentidos e por isso não se concentram numa tarefa, adoram começar projetos e estão sempre sedentos de novos, vêm uma realidade muito mais ampla e por isso o resultado final da sua criação é sempre inesperado.

Porém não pode ser um processo forçado, pois uma pessoa com baixa inibição latente que tenta prestar atenção a tudo, fica cada vez mais confuso (como Kierkegaard refere como um sujeito com possibilidade de cair em esquizofrenia quando o tenta forçar ao processo atencional, pois pode criar déficits na memória de trabalho o que o faz criar um processo de realidade diferente).

É este o grande ponto deste artigo, criar é um estado do acaso, não se cria concentrado pois ativamos áreas opostas (em função) do cérebro… para criar precisamos de baixa inibição latente com excesso de pensamentos, até que se faz um click. Precisamos da informação mais importante e ao mesmo tempo a menos relevante.

Assim a criatividade vive na singularidade… como estimular??? Criando “pontos de fuga”, ou seja, proporcionar o acaso, o improvável, fornecendo pistas para o inesperado, aumentando a dopamina no organismo, criando “comichão mental”… e quando tudo deixar de fazer sentido, aí começamos a criar e somos únicos! E quando não conseguirmos criar “comichão mental”, resta-nos inovar, pesquisando o que os outros fazem… mas criar… para isso precisamos da “tal” singularidade!!!

Por Fernando Rodrigues

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