“Todo o nosso conhecimento tem origem nas nossas percepções!”
Leonardo Da Vinci

Será que o nosso cérebro vê o real? A beleza dos pormenores? A verdadeira arte? Afinal existe alguma medida de beleza na arte e na vida? Será a percepção um instrumento falacioso, como se faz acreditar, ou terá algum grau de precisão e acuidade? São estas algumas das questões que me levam a escrever este post!

Ao ler um artigo sobre como o cérebro percebe a arte, escrito por Jonah Lehrer, deparei-me com um estudo interessante que suscitou algumas questões. Neste estudo efetuado por Huang et al. (2011), eram colocados sujeitos perante quadros de Rembrandt verdadeiros e falsos, e ao mesmo tempo eram avaliados com fMRI (ressonância magnética funcional). Neste estudo ao visualizar as cópias do original, foram evocadas estimulações no córtex frontopolar (FPC), e praecuneus direito, independentemente do quadro ser realmente genuíno. Sugestões sobre a autenticidade não teve efeito direto sobre as áreas corticais visuais sensíveis às pinturas, mas houve uma interação psicofisiológica significativa entre o FPC e a área lateral occipital, o que sugere que essas áreas visuais podem ser moduladas pelo FPC. Estes autores propõem que a ativação de redes cerebrais, ao invés de uma única área cortical neste paradigma, mostra que os profissionais de arte “têm juízos estéticos multifacetados e multidimensionais da natureza“.

20120102-232258.jpgResumindo… A primeira coisa que encontraram os investigadores, foi que não não existiam diferenças na activação de áreas visuais quando visualizados os originais ou as cópias de 50 quadros de Rembrandt. Outra questão importante foi a ativação do córtex orbitofrontal (muito importante no processo de recompensa como mostra oartigo de Bechara, Damásio & Damásio (2000)) quando existia um valor percebido do quadro (independentemente se era original ou falsificação), e finalmente, o ponto talvez mais importante deste estudo, foi que ao ver as falsificações ativavam o FPC e o praecuneus, ligando estas áreas a uma espécie de detetor de falsificações.

Porém esta área pode ser modulada pelas percepções… Num estudo de 2008, efectuado por Plassmann et al., foram testados, também em fMRI sujeitos que provavam o mesmo vinho, mas com preços diferentes, afirmavam que sabia melhor o vinho mais caro, porém isto também não é surpresa, a parte interessante desta descoberta, é a ativação do córtex orbitofrontal, a mesma área que era associado o valor do quadro, ou seja, uma área de prazer e associada à recompensa.

Mas será que além do preço existem outros factores que influenciam a nossa percepção de belo ou de bom? Afinal será a proporcionalidade um factor de “prazer”?

Alguns estudos, como o de Zhang, et al. (2011) (artigo) mostram que a proporcionalidade geométrica é muito importante na definição de padrōes de beleza. Mas e que geometria é esta? Num artigo publicado no meu livro, num estudo do Paulo Rodrigues e colaboradores, mostramos as escolhas dos consumidores dependem das proporções e da forma do produto, sendo que o consumidor prefere a proporção dourada no design de produto a outras proporções.

Mas afinal o que é a proporção dourada?

A proporção áurea, proporção dourada, número de ouro, Phi, (que aconselho a leitura da definição da Wikipédia), abordada pela primeira vez por Euclides, que dividiu uma linha (A) em duas secções (B e C), de modo a que a razão de toda a linha (A) para a parte maior (B), é a mesma que da parte maior (B) para a mais pequena (C), ou seja A/B = B/C, esta proporção, também denominada por Phi é representada pela seguinte fórmula: \phi = \frac{1 + \sqrt{5}}{2} \approx 1.618\,033\,989\,, que de forma arredondada representa cerca de 1,618. Esta proporção ganhou tanta preponderância que muitas das bases da matemática, geometria e arte usam esta proporção como base, como por exemplo, o Teorema de Pitágoras. Este tema da proporção dourada foi mais tarde explanado por Leonardo de Pisa, também conhecido por Fibonacci, que explana a denominada Cadeia de Fibonacci, demonstrando a evolução da proporcionalidade de 1,618 em muitas áreas, desde a arquitectura, arte, anatomia, biologia, geologia,… enfim, um pouco por todas as ciências era possível encontrar a proporção e a sua influência sobre os processos de tomada de decisão.

No estudo referido anteriormente, publicado no livro “Influência do NeuroMarketing nos Processos de Tomada de Decisão“, que coordenei a publicação, no estudo do Paulo Rodrigues e colaboradores, verificou-se que a decisão recai sempre sobre os produtos com proporcionalidade de Phi, quando comparados com sólidos diferentes de cubo e com proporcionalidade diferente de Phi.

Adrian Bejan, da Universidade de Duke, afirma num artigo de opinião, que acredita que esta proporção é tão comum na natureza, na arte e na arquitetura porque, segundo ele, os olhos humanos analisam a imagem com maior rapidez se se tratar de uma forma compatível com um retângulo na “proporção dourada”, ou seja, o mundo (humano ou natural) está basicamente orientado na horizontal e os animais especializaram a sua visão para procurarem presas e caçadores nesse eixo, tendo aqui, assim, uma visão mais perfeita nesse mesmo eixo. Os mecanismos de cognição evoluíram, filogenéticamente em sincronia com esta adaptação da visão, acompanhando a nova informação com a capacidade de processamento e por essa razão é que existiria na natureza tantos exemplos da “proporção dourada” e porque estes seriam tão comuns na arte... porque biologicamente todos fomos programados para o procurar e reproduzir. Mas será assim tão primitivo? Será mais místico? Ou será biológico?

Num estudo desenvolvido por Di Dio, et al. em 2007 no Laboratório de Neuroimagem em Roma – Itália, descobriram que ao observar as esculturas originais (com proporção de 1:1.618), em relação a esculturas modificadas (com proporção 1:0.74 e 1:0.36), existia uma
ativação da ínsula direita, bem como de algumas áreas laterais e mediais corticais (giro occipital lateral, precuneus e áreas pré-frontais). A ativação da ínsula foi particularmente forte durante a condição de observação. O mais interessante, quando os voluntários eram obrigados a dar uma opinião aberta sobre a estética, as imagens julgadas como belas, ativavam seletivamente a amígdala direita, em relação àqueles que eram julgados como feios. Concluíram os autores que, em observadores com baixa capacidade crítica de arte, o senso de beleza é mediada por duas organizações de processos não-excludentes: um baseado numa ativação conjunta de uma série de neurónios corticais, provocada por parâmetros intrínsecos aos estímulos, e a ínsula (objetivo beleza); a outra baseada na ativação da amígdala, impulsionado pelas suas próprias experiências emocionais (beleza subjetiva).
Assim, de acordo com variados estudos a proporção dourada influencia na nossa escolha do parceiro (homens e mulheres com faces mais “proporcionais” e mãos mais proporcionais são mais escolhidos), na nossa escolha de um produto (embalagens com proporcionalidade são mais escolhidas), na nossa escolha de casa (edifícios com proporção dourada são mais vendidos), na nossa escolha de arte, enfim… nas nossas escolhas a proporcionalidade dourada tem impacto!
Mas como pode isto ajudar na aprendizagem e na forma como trabalhamos no nosso mundo?
Enfim, criando instrumentos com proporcionalidade (por exemplo, o livro que coordenei a edição, quando dividida a altura pela largura, está concebido à razão de 1:1,618), quando criamos uma imagem como por exemplo, um banner, quando desenhamos uma embalagem, quando criamos um logotipo, quando elaboramos uma página da internet, ou até, quando elaboramos slides para uma apresentação, quando pintamos… enfim quando fazemos algo na vida.
Até no próprio princípio de funcionamento e comunicação cerebral, funciona de acordo com esta proporcionalidade, de acordo com um estudo desenvolvido em Leipzig – Alemanha, por Weiss & Weiss, que referem que “o princípio da informação de codificação pelo cérebro parece ser baseada na proporção dourada“. Durante décadas, os psicólogos têm reivindicado espaço de memória para ser o elo perdido entre a inteligência psicométrica e cognição. Neste estudo descobriram que a métrica de ondas cerebrais podem ser sempre entendida como uma superposição de harmónicos n x 2Φ, onde metade das fundamentais é a proporção dourada Φ (= 1,618) como o ponto de ressonância.
Até na própria música existe muita influência, como podemos ver neste artigo de opinião, onde a cadeia de Fibonacci e a proporção dourada está presente nas melhores partituras, desde os primórdios.
O cérebro humano está continuamente exposto à proporção áurea na natureza, por exemplo, um numartigo de opinião, escrito por Suhail Jalbout, este refere que o cérebro analisa a relação entre diferentes partes de formas de vida e conclui que a proporção de ouro mostra a construção mais bela que pode existir, pelo menos para o nosso cérebro. Consequentemente, o cérebro vai selecionar a razão de 1:1.618033 em vez da razão 1:1.234718 para as formas perfeitas. Para este autor, a escala e a proporção são o conceito-chave da representação visual, o cérebro vai prosperar para aplicar a razão de ouro para o corpo humano, por exemplo. Apesar deste autor tirar algumas elações, com as quais eu próprio sou crítico, nesta parte sou forçado a concordar com os estudos que tenho referido acima.
Finalmente num estudo sobre a Percepção Feminina da Razão Áurea em pinturas, obtiveram como valores significativos que a faixa etária feminina entre os 34-42, que preferiu a proporção dourada. Mas existem váriados estudos que sublinham a importância desta proporção na arte e na vida.
Seremos assim nós tão sensíveis à geometria? Será como referia Blaise Pascal, a geometrie et finesseque nos refere a diferença entre o espírito da geometria e o espírito de finesse, que nos mostra o mundo com outros olhos? O mundo encerra em si tantos segredos, que ao mesmo tempo são tão simples e geométricos… Assim como o facto de sem fazer grande esforço ou cálculo, conseguir escrever um artigo sobre porporcionalidade dourada, com exatamente 1618 palavras? Será o espírito de geometrie et finesse a inspirar? Bem, pelo sim pelo não, vamos manter as portas da proporcionalidade abertas!
Afinal a beleza da arte, assim como o sabor das coisas não está exactamente nas coisas, nós só vemos a beleza e apreciamos algo porque procuramos… E o cérebro ajuda um pouco!

Por Fernando Rodrigues

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