Como aprende o ser humano? Porque é que alguns aprendem mais rápido do que outros? Serão as crianças pequenos “cientistas” que depois perdem as capacidades quando crescem? E os mais inteligentes, estarão a ficar mais inteligentes? Afinal como funcionam os nossos circuitos (ou curto-circuitos) neuronais e como aumentar a eficácia da aprendizagem? E quando o reforço na escola falha? Como compensar? Carol Dweck, uma psicóloga de Stanford refere que “nós temos uma determinada capacidade de inteligência e não podemos fazer muito para a mudar”… será que tem razão? Será a NeuroEducação um caminho?

Numa observação atenta sobre a atualidade, vemos muitas pessoas a dar opiniões sobre tudo e mais alguma coisa, assumindo que os “outros” é que erram e que existem os críticos, que “não erram”. Sinto assim a necessidade de evocar a definição do físico Niels Bohr (com a qual concordo e sublinho), que define especialista como “a pessoa que cometeu todos os erros que podem ser cometidos num campo de ação muito delimitado”. O meu estimado Voltaire, referia-se ao processo de conhecimento de uma forma muito idêntica, onde referia que “não existe no mundo ninguém tão inteligente que consiga aprender com os erros dos outros”. Ora, de acordo com estes autores e sublinhando uma conclusão de Jonah Lehrer no seu artigo, o processo de aprendizagem não é mágico… é o conhecimento aprendido pelo erro.

A verdadeira questão é: Porque é que uns são mais eficazes a aprender com os erros do que os outros, se afinal todos fazem asneiras? Será que ignoramos os nossos erros, ou será que nos debruçamos sobre eles para aprender com eles? Foi sobre esta questão que Jason Moser se debruçou, num estudo publicado na revista Psychological Science, em que o autor partiu do pressuposto que existem dois tipos de reações ao erro (sendo que ambas são observáveis em EEG), a ERM (error-related negativity) ou negatividade referente ao erro (que aparece cerca de 50 milissegundos após um erro e crê-se que tenha origem no córtex cingulado anterior, uma zona do cérebro que ajuda a monitorizar o comportamento, regula a atenção e antecipa as recompensas) sendo que é uma reação, na maior parte das vezes involuntária, ou seja, uma resposta inevitável a qualquer asneira. O segundo tipo de reações ao erro, é o Pe (error positivity) – a positividade ao erro (surge entre 100 e 500 milissegundos após o erro e está associado com a capacidade de vigília) que acontece quando prestamos atenção ao erro e lidamos com o desapontamento. O que os estudos (referidos por Moser) sugerem é que, as pessoas que têm um sinal maior de ERN, sugerem uma maior resposta inicial ao erro e que um sinal Pe mais consistente, refere por sua vez que os sujeitos estão provavelmente a prestar atenção ao erro e tentam aprender com ele! Os dados deste estudo referem que os sujeitos que têm um maior sinal de Pe (ou seja, os que prestaram atenção aos erros e os aceitaram) aprenderam a fazer correto, ao contrário dos mais relutantes e que não assumiam os erros (com Pe mais baixo cerca de 77%).

Num estudo já com alguns anos (1998), Dweck & Mueller, na altura na Universidade da Columbia, mostraram que estes dados têm importantes implicações, por exemplo, quando as crianças eram reforçadas/estimuladas para a sua capacidade de esforço, elas escolhiam as tarefas mais difíceis, porém quando eram reforçadas/estimuladas para a sua capacidade intelectual, a maior parte delas escolhia as tarefas mais fáceis. De acordo com as autoras, quando estimulamos a inteligência das crianças, encorajamos a que elas pareçam “espertas”, ou seja, elas não querem correr o risco de cometer erros. Não será o mesmo com os adultos? Será por isso que as pessoas não gostam de assumir riscos e responsabilidades? Com medo de errar? Será a responsabilidade dos educadores que estimulam desde cedo a inteligência em detrimento do esforço, punindo o erro? Porém, o paradigma da aprendizagem não deve ser esse… a ideia é que se entendam os erros e aprender a partir deles por forma a entender como fazer melhor, pois neste estudo, os “esforçados” obtiveram pontuações cerca de 20% mais elevadas do que os “inteligentes”, que desistem mais facilmente por experimentarem a falha.

Mas alguns estudos apresentam outros dados que complementam os anteriores, como refere Jonah Lehrer noutro artigo, em que nos fala do efeito Flynn, que continua a estar envolto em mistério. O efeito Flynn, popularizado pelo cientista político James Flynn, refere-se ao aumento exponencial das pontuações de QI no passar do tempo. Ao longo dos anos, as performances nas medidas de inteligência (por exemplo as Matrizes Progressivas de Raven) têm aumentado ao longo dos últimos 100 anos. Mas o interessante é ver como aumentaram as pontuações, que podem ver neste estudo:

  1. As pontuações aumentaram quase todas na parte de resolução de problemas dos testes de inteligência;
  2. A inteligência verbal mantém relativamente a mesma pontuação, enquanto que a pontuação nos testes não verbais continua a aumentar;
  3. Os ganhos na performance tem sucedido através de todos os grupos etários;
  4. O aumento de pontuações existe primariamente nos testes em que o conteúdo não aparenta ser facilmente aprendido.

Mas estaremos nós a ficar mais inteligentes? Este último ponto faz-nos observar que os investigadores detetam que a inteligência aparece quando menos é esperada… nas tarefas mais difíceis.

Este efeito de “aumento de inteligência”, ou, efeito Flynn, tem sido explicado com o aumento da educação precoce (especialmente no género feminino), aumento da sofisticação dos testes, nutrição adequada, entre outros. Mas a questão coloca-se da seguinte forma: Aplicar-se-á este efeito a todos? Será que vai começar a desaparecer? Iremos ficar menos inteligentes? Alguns estudos mostram que este efeito começou a desaparecer na Noruega, Dinamarca e Inglaterra. Porém, estarão os inteligentes a ficar mais inteligentes? De acordo com Jonathan Waiat, parece que sim… os mais inteligentes, estão de facto a aumentar o nível de inteligência… não sabemos porém se é devido ao efeito Flynn, mas parece ser por causa da estimulação ambiental, porém continua este efeito a ser um paradoxo.

Um dos problemas, que li num artigo, situa-se de facto na psicometria… nos anos 80, Paul Sackett, um psicólogo da Universidade do Minnesota, começou a medir a velocidade dos trabalhadores das caixas dos supermercados, servindo para contratar “caixas” mais rápidos… Hoje os próprios aparelhos dos caixas de supermercado fazem isto automaticamente, o que fez com que os níveis de produtividade aumentassem muito. Ainda hoje, se medem recursos humanos, com testes psicométricos e outros de performance (como por exemplo no futebol, nas forças de intervenção) avaliando capacidades físicas e mentais, tentando prever a sua performance.

A questão é que num estudo efetuado pela NFL (National Football League – EUA) revela que os testes de performance, não são tão preditivos como se previa no resultado pósteste. Num outro estudo, mostra que as pessoas que praticavam deliberadamente, ou seja, com gosto no que fazem, recebem uma espécie de recompensa intrínseca, obtendo melhores resultados no que fazem com perseverança e paixão (para metas a longo prazo) era mais eficaz do que outros tipos de treino e preparação. Ou seja… o que nos guia pela paixão é muito mais eficaz no processo de aprendizagem, do que o que se treina muito mas não nos apaixona!

Entra aqui a necessidade do lúdico na aprendizagem… num estudo publicado em 2006 na Science, que compara o modelo Montessori (salas com pessoas de idades diferentes, onde os alunos escolhem o trabalho a realizar em módulos de longo prazo, mais lúdico e que não apresenta testes nem avaliações), ou seja, contrariamente a tudo o que se faz no modelo educacional atual, surge como um sucesso. Os alunos treinados com este modelo desde a creche, têm melhores performances nos testes de leitura e matemática, interagem melhor nas tarefas de grupo e nos intervalos, mostram uma cognição social e controlo executivo mais avançado, assim como conceitos de justiça e partilha. Conseguem escrever ensaios com frases mais complexas, respondem mais positivamente a dilemas sociais e vivem um sentido mais correto de comunidade na escola. Então se o que se faz agora não está a funcionar, porque se continua a educar da mesma forma? E em adultos, devemos utilizar o lúdico?

Outra das sugestões é não levar a educação e a formação (pelo menos de adultos), demasiado a sério… afinal, os brincalhões, aprendem mais. Num estudo elaborado na Universidade de Zurich por Proyer (2011), descobriu-se que afinal a atividade lúdica está associada a melhores performances académicas (como por exemplo as notas dos exames)… além disso os alunos adultos que se descreviam como brincalhões, liam muito mais do que o que necessitavam para passar no exame, mostrando curiosidade pela aprendizagem individual… será por isso o bom humor fundamental para a aprendizagem eficaz?

Já Nietzsche referia que: “A luta pela maturidade é recuperar a seriedade de uma criança quando brinca!” Então enquanto os pais tentam envolver os filhos em imensas atividades académicas (o que provavelmente é um erro enorme), de acordo com os estudos, não será melhor envolvê-los no brincar e estimular para que descubram o que lhes dá prazer? Afinal a “brincadeira” ajuda muito mais do que se imagina… e a criança consegue criar o seu próprio ambiente de aprendizagem, sem que seja imposto! Afinal queremos ter adultos que pensam em liberdade, ou queremos seres formatados para pensar da mesma forma como máquinas?

Afinal Carol Dweck, quando afirma que “nós temos uma determinada capacidade de inteligência e não podemos fazer muito para a mudar”, à luz dos estudos presentes, parece ter mesmo razão… a nossa infância condena a nossa capacidade de atuação futura, ou pelo menos, modela-a muito!

Então como NeuroEducar?

O problema está em reforçar a inteligência “inata” das crianças (por exemplo, “tão inteligente que tu és… és muito esperto, por isso vais conseguir!”), pois assim aumentamos o “medo” de falhar perante a pressão o que faz com que evitem atividades de “risco”, que devem servir para aprender com o erro.

A outra questão está no facto de “formatar” todas as crianças da mesma forma… A questão é que ao acontecer isto em criança (até aos 6 anos como referia Bowlby no estudo da vinculação), é que a mente passa a utilizar para o futuro estes modelos de atuação e depois mantém-se os mesmos erros, mantendo níveis de automelhoria e autoconfiança baixos.

Como refere Samuel Beckett… “Tente sempre. Falhe sempre. Não importa. Tente outra vez. Falhe outra vez. Falhe melhor!”… e quando falhar, faça-o com gozo, sorrindo e não se preocupando com a avaliação… afinal, quando a avaliação passar, precisamos de continuar a ser bons no que fazemos e felizes ao mesmo tempo, certo?