Ora cá fica um novo comentário crítico muito interessante!!! No artigo anterior ficou patente a ideia de que a música poderia proporcionar prazer. Mas será a música bela? Afinal o que é o conceito de Beleza?

Num estudo de Ishizu & Zeki (2011) publicado na PLOS (artigo original), tentaram encontrar o estrato neuronal da Beleza.  Foram analisados sujeitos com fMRI (Ressonância Magnética Funcional) e a imagiologia mostrou que uma parte do cérebro dos sujeitos activava mais intensamente no Córtex Orbitofrontal Medial (COFm) quando experienciavam imagens belas ou música agradável, do que quando ouviam ou viam imagens ou música desagradáveis ou indiferentes.

Os autores referem vários estudos que ligam o COFm à Beleza, porém é uma das partes do nosso encéfalo que desempenha imensos papeis, como por exemplo no processo de prazer e da recompensa. Está também envolvido de forma muito particular nas emoções, sentimentos e processo de tomada de decisão… mas a área que processa a Beleza foi localizada pelos autores como “campo A1″, pois era uma zona que activava comummente em todos os sujeitos que experienciavam Beleza (aos seus olhos e ouvidos).

Acrescento ainda, que nestas descobertas, quanto maior a Beleza considerada pelos sujeitos, mais ativava esta zona do COFm, pressupondo que os circuitos dopaminérgicos nestas áreas estavam em hiperatividade, produzindo uma elevada expectativa de recompensa.

Mas o que intriga neste estudo, não é o facto do arquétipo de Beleza estar localizado no cérebro, mas sim de estar localizado no mesmo circuito de recompensa e prazer, pois poderia por hipótese estar localizado no putâmen ou zonas mais ligadas ao amor romântico, sendo um conceito mais abstrato.

Mas porque é que a Beleza existe? Num comentário de Lehrer (2011) no seu blog Frontal Cortex (Artigo Original), fala da Beleza como uma “forma particularmente potente e intensa de curiosidade”. É como que um sinal aprendido que nos pede para prestar atenção, uma espécie de lembrete emocional que nos diz que existe algo que devemos prestar atenção, ou por outras palavras, a Beleza é uma Força motivacional que nos ajuda a modelar a nossa destreza atencional, indicando os estímulos que merecem mais atenção e os que devem ser ignorados.

Ao falar de atenção aliada à Beleza somos forçados a abordar o tema da curiosidade. Num estudo muito “curioso” que Kang et al. (2008) publicarou na Psychological Science (Artigo Original), questionavam sujeitos com perguntas tipo “trivial” e pediam para dar a resposta em silêncio, indicando posteriormente a sua curiosidade acerca da resposta, enquanto eram avaliados em fMRI.

Uma das descobertas mais interessantes deste estudo foi que nós somos mais curiosos quando já sabemos um pouco do assunto.  Isto subscreve a teoria de Loewenstein, um especialista em Neuromarketing e Economia Comportamental, que a curiosidade aparece quando sentimos a diferença entre o que sabemos e o que queremos saber… e isto tem consequências emocionais, é como se fosse uma “comichão” mental e nós procuramos conhecimento da mesma forma que coçamos uma comichão!!!

Porém a parte mais interessante deste estudo, no meu entender, surge pelo facto de existir uma ativação do núcleo caudado, que parece fazer a ponte entre o conhecimento (Sabedoria) e as emoções positivas (Beleza). Então, podemos inferir que o nosso desejo por mais Sabedoria (que causa a curiosidade) começa com um desejo dopaminérgico, enraizada no mesmo caminho de neurotransmissão que respondem o Sexo, Drogas e Rock & Roll, como abordei no artigo anterior.

E a forma de dar Força (como ligação) à Sabedoria e à Beleza, é, no meu entender, com música. Ou porque será que alguns sons são tão bonitos para nós? Como nos faz relaxar e sentir tanto prazer (quando é isenta de imagens, de linguagem ou ideias explicitas), por exemplo alguma música clássica?

Neste campo quero partilhar um estudo, realizado por Salimpoor et al. (2011) publicado na Nature Neuroscience (Artigo Original), que já abordei em Abril de 2011 numa conferência de Neuromarketing de Guerrilha no Instituto Politécnico de Leiria, onde mostrei um exemplo desta interferência com música (ver video 1) (ver video 2) interferindo com a noção de Beleza e Sabedoria.

Com este estudo começamos a entender de onde vêm estes sentimentos, esta Força…

Era assim pedido aos sujeitos para trazerem a sua lista de músicas preferida e ouviam as músicas enquanto monitorizavam a atividade cerebral com tecnologia muito precisa e fiável (fMRI aliada ao PET).

A primeira grande descoberta deste estudo foi que a música bela, desencadeia uma libertação de dopamina no striatum (ventral e dorsal), regiões estas que estão associadas a estímulos prazerosos. Mas a grande descoberta não teve que ver com a área estimulada (área de prazer), mas com o tempo da resposta, pois o que os investigadores se aperceberam foi que os disparos aconteciam segundos antes da música começar, como que prevendo prazer, ativando o Núcleo Accumbens direito (área associada ao prazer) que ativava quando ouviam a música preferida.

Resumindo, a ideia principal do estudo refere que os momentos favoritos da música, que precedem uma atividade prolongada no Núcleo Caudado (a mesma área envolvida na Sabedoria e curiosidade), acontece como expectante do climax emocional da música (que se desenrola no Núcleo Accumbens, área do prazer e Beleza) como que aumentando a recompensa ouvida pela música (ganhando assim Força na potência do estímulo).

Esta descoberta mostra, que é possível pela música, estimular a antecipação emocional de prazer, manipular a excitação emocional do sujeito fazendo com que as coisas se tornem mais belas aos seus olhos pela expectativa antecipatória, aumentando a motivação do sujeito para a recompensa.

Mas a questão que alguns podem estar a colocar neste momento é:

Mas o que podem estes neurónios de dopamina do caudado fazer? Como é que aspectos musicais condicionam a noção de Beleza? E porque é que estes neurónios dopaminérgicos estão tão hiperativos 15 segundos antes do climax musical? Afinal não é a dopamina associada com o prazer e com as recompensas? Mas se os neurónios de dopamina prevêem, depois de prever uma recompensa não deixam de disparar?

A questão é que a música é arte… e é matemática e geometria ao mesmo tempo!!! Tudo tem a ver com os padrões, aparecendo a parte mais importante quando a música sai do padrão e aparece o impredictível pelos nossos neurónios de dopamina. Mas porque é que os neurónios dopaminérgicos (que são adaptativos) não se adaptam à música? Aqui aparece o segredo do compositor – a nota tónica – colocando esta nota no início da música e evita-a criteriosamente até ao final!!! Cria a curiosidade… cria a Beleza!

Já em 1956, Leonard Meyer estudou no seu livro “Emotion and Meaning in Music” o 5º movimento do Quarterto de Cordas em Dó Menor de Beethoven, onde mostra que o compositor evita claramente repetir a tónica, por forma a atribuir Sabedoria, Força e Beleza à música que hoje percebemos nas neurociências, repetindo apenas esse acorde no final… Beethoven já teria descoberto o que hoje identificamos… a incerteza e a expectativa cria o sentimento e aumenta a noção de prazer!

Como a Sabedoria, na sua valência da curiosidade, a Beleza é a Força motivacional, uma reação emocional, não à perfeição ou ao completo, mas ao imperfeito e incompleto, por sua vez impredictível aos nossos neurónios de dopamina… é por isso que se diz que a Beleza está nos olhos de quem a vê… mas afinal não é nos olhos, mas na mente de quem a recebe!!!

Por Fernando Rodrigues

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